naverelação (relationship)

 

Então ela já se sentia íntima o suficiente para perguntar sobre aquele objeto que lhe intrigou por tanto tempo e enfiou sua mão por cima do pescoço dele e retirou o fio de prata do qual pendia um pequeno relicário com uma portinha e uma fechadura e perguntou com os olhos onde está a chave e ele não respondeu. Ao invés disso, arrancou um fio dos cílios dela e abriu a porta do colar, então ela viu lá dentro a foto de um velho homem que sorria e ela pensou ele compreende. Depois viu que nos olhos do velho vibrava uma luz igual à luz que vibrava nos olhos dele e depois a luz vibrou mais e ela viu que o rosto do velho tinha os mesmos traços do rosto dele deitado ao seu lado é seu pai? ele sorriu pois sabia que essa pergunta escondia um outro espanto diante de outra verdade não esse sou eu mais velho eu já conheci a morte. Ouvindo isso, ela voltou novamente os olhos para os olhos dele deitado ao seu lado, e se espantou de novo porque viu no fundo de sua íris o vibrar de um olho que a olhava desde menina e viu que o que vibrava ali eram os olhos de uma criança ainda não nascida. Apavorada ela começou a vestir-se e sem dirigir-lhe qualquer palavra disse não não quero não ainda não agora e dizendo assim, bateu a porta falando com os olhos amanheceu, preciso ir. E da mesma forma que nas outras noites passadas juntos ele virou para o lado e disse bah, esfinges e voltou a dormir abraçado ao travesseiro como dormiu todos os dias em que ela saiu dizendo amanheceu, preciso ir.

Bala de prata

Quando  meus pés andavam pela passarela da avenida principal, larga e ensolarada, meus olhos seguiram meus ouvidos quando estes atentaram ao chamado de um garoto negro que gritava da última janela de um ônibus em movimento alguma palavra obscena claramente dirigida a mim. Olhei enquanto andava, e por um momento os olhos vermelhos do garoto negro pousaram em mim, antes de se esconder de novo, e o que pude ver em seguida foram só dois dedos em forma de V estendidos, mas logo depois um único dedo, o do meio, em forma de pênis, creio, ereto, na minha direção, raivoso, brilhantemente negro. O ônibus continuou seu percurso, mas de alguma forma aquele dedo permanecia estendido como uma lança e agora penetrava meu corpo. Penetrava com o poder de uma imagem, penetrava com mais violência do que um fato, posto que agora era símbolo. E foi assim que senti o dedo penetrando minha carne, atravessando-a, sua raiva e sua potência, a força da humilhação sentida primeiro, o baque. Mas em parte neutralizada, pois que tentei levar aquilo não por isso que sou, mas por aquilo que represento. Tornei-me símbolo para ser atravessado por outro símbolo. E abri um sorriso generoso, pois assim, tornado símbolo, tomado por aquilo que represento para aquele garoto e não por aquilo que acho que sou individualmente, me senti de alguma forma colaborando para a destruição dessa engrenagem complicada que se chama sociedade. Fechei os olhos e vi que o dedo em riste mal atravessava meu corpo simbólico, e já saía do outro lado, em direção a um outro sistema opressor, que sei não fazer parte intelectualmente, mas que sei corroborar desde um nascimento do qual nem posso me lembrar. Não sei em que sonhos meu pai receberá este dedo, não sei como minha mãe sentirá este pênis negro, não sei como meus irmãos, meu avô, minha avó, minha classe. Sei que usei meu corpo como passagem para aquele dedo. Passagem para que aquele ímpeto em parte revolucionário encontrasse seu alvo. Tornado representante do inimigo para aquele garoto, compactuei de alguma forma para que seu dedo chegasse onde ele queria que chegasse. Um dedo no cu da minha classe. De onde eu vim. De onde tento sair há tanto. Eu disse: Ok. Vamos brincar de polícia e ladrão, vamos inverter os papéis pelo menos por um momento aqui, pelo menos até o momento do seu ônibus virar a curva.  O garoto não sabe quem sou. Ele me tomou por quem eu represento. Penso se gostaria que ele soubesse quem sou na verdade. Que ele descesse, que ele me dirigisse a palavra cara-a-cara. Que eu pudesse esclarecer aquele mal entendido. Mas não. Pensando bem, não. Melhor permanecer com a máscara que me vestiram. Melhor assim, pois talvez dessa forma aquele garoto negro possa tomar aquilo como um grande ato simbólico e possa continuar transformando sua raiva em símbolo, transformar todo esse ímpeto em coragem e criação. Que meu corpo tenha servido como o primeiro peão derrotado neste jogo que o garoto irá jogar, ótimo. Garoto, eu te quero mais forte. Me queime, e eu não me importaria. O problema é que eu acho que você não vai fazer nada disso. Me aflige pensar que provavelmente você irá descer desse ônibus daqui a quarenta minutos, exausto e raivoso, colocará seus pés descalços numa rua enlameada e entregue às moscas e irá procurar rapidamente o esquecimento e o entorpecimento. Irá ligar um som barulhento, irá convocar companheiros rancorosos e de olhos vermelhos como os seus, dançará suas danças iguais a todas as outras que se dançam por aí, e mais tarde talvez durma tranquilo com a cabeça leve de fumaça, as veias plenas de uma substância qualquer e um bafo de cachaça de fazer dó a qualquer camelo. Talvez faça três ou quatro filhos indesejados, talvez vá parar algumas vezes na delegacia, talvez termine, enfim, preenchendo mais um espaço no quadro que minha classe constrói com tanto zelo há milênios. Afora isso, o que temo verdadeiramente é que algum dia, ou eu ou você sejamos atravessados, não por um dedo simbólico, não por uma lança viril, mas por uma pequena bala de prata, uma bala de prata quente e real, quente e real como eles querem que todo fato seja. E nós, já devidamente apartados deste mundo, venderemos, igualmente, cada um em seu lugar de importância social, devo dizer, muito jornal para aqueles que sabem ler. E o uníssono dos velórios irá calar qualquer palavra escrita até este momento, e suas lágrimas dissolverão nossas antigas diferenças num mesmo bolo indistinto, e eles continuarão a viver as suas vidas como se viver não fosse algo muito perigoso; para sempre bobos e tristes, exatamente como eles eram quando não puderam perceber a alegria trocada entre nós naquela larga e ensolarada avenida, numa linda tarde de sexta-feira.

Rua de passagem

Contra a falsificação da vida, a persistência das memórias de fogo. Pois foi pelo sangue que eu a reconheci. Lembro da luz do meio-dia, impiedosa. Nunca mais voltarei a ver um amarelo tão intenso, derramado por todos os cantos de uma pequena rua de passagem, atrás de uma velha capela rosa cravada no coração da cidade. Com tantas ruas maiores ao lado, justamente naquela nos encontramos e eu não pude reconhecê-la imediatamente. Estávamos os dois de óculos escuros, preocupados em preservar a visão do meio-dia. Titubeante, retirei meus óculos e sorri ao sol; ela gargalhou, tocou minha mão. Perguntou alguma coisa, afirmou qualquer caminho, ou disse estar de passagem; mas nada disso importava. Eu só podia enxergar – e era isso o que importava – aquele ponto que ligava seu nariz à sua boca. Com os olhos apertados, a única imagem discernível eram os pequenos vasos vermelhos  dilatados pelo calor bem ao fim do seu nariz. Os rios de sangue formavam um minúsculo ramalhete fluindo por entre os milhares de pelinhos dourados e gotículas de suor da pele amorenada e pareciam convergir para um único ponto: a boca. Mas não desciam visíveis até lá; bem antes escondiam-se por debaixo da pele e desaguavam em outros lençóis de sangue, maiores e mais ocultos, para finalmente brotar de novo, tingindo fortemente a boca rosa-escuro que estremecia sem sentido algum, apenas a um palmo de mim. Foi tudo o que ficou: ao meio-dia o chiar do sangue, o frescor da fruta. Essa foi a primeira chama em direção à extinção, às cinzas. Esse dia, tão intenso, tão cru, determinaria a ordem dos acontecimentos que estariam por vir: estariam todos fadados a ser menos luminosos. Nunca mais conseguiríamos ser tão íntimos um do outro e da vida quanto nessa ocasião. Momento que não chegou a durar nem um décimo de hora, e que me fez lembrar da morte de Van Gogh.

2 de novembro

 

Dia de finados, eu aqui pensando.

lá no méxico eles pintam caveiras sorridentes de papel machê

e sobre algum lugar do atlântico meu avô continua dançando sua dança senil

de velho tirésias embriagado sacaneando tudo isso.

Evoé seu bêbado safado. Meu corpo é seu.

(quando eu morrer quero o último sonho de Kurosawa realizado)

“eu não nasci pra ser pedra”

coisa que poucos sabem, seguir o caminho de dionísio é saber a hora certinha de evaporar e deixar tudo aí, jogado, destruído, como se não fosse com você. esse dionísio com folhinha de parreira na cabeça é uma invenção otária. materialmente, dionísio é morte e falta-de-sentido. não tem máscara que dê conta, não tem história que se possa contar. portanto As Bacantes é antes de tudo um erro. “Oh, mea culpa”. entenda quem puder, mas todos preferem falar sobre encontros e desencontros, movimentos estudantis e ingressos pra amanhã. então vamo brincar. mas sei que haverá silêncio sobre tudo isso.

O Evangelho Segundo Daniel, O Tranca-Rua

CAPÍTULO I

Sei que não foi por nenhum acaso que nos chegou à roda de amigos um mendigo  baixinho e coxo de nome Daniel, de língua “plesa” e falando “x” em lugar do c” e do “s”. Diríamos melhor, uma perigosa união de Cebolinha com Jorge Ben, que só fazia aumentar em nós o prazer dessa deliciosa nostalgia infantil e tipicamente masculina que nunca deixa de dar as caras em rodas como essas.

“- Como é xeu nome, cala?”

“- Daniel também, meu caro, prazer. Sente-se
conosco”.

Aliás, todos bêbados, não seria de todo estranho que tivéssemos invocado sem o saber algum macunaíma ou zé-pilintra de outros planos, que, estando o tempo todo sorrindo marotamente bem abaixo de nós, aguardaria a melhor oportunidade para se nos mostrar em plena forma física, encarnado em forma de gente, no corpo de um tranca-rua qualquer. Afinal, ninguém pode imaginar o poder ritual de quatro bêbados juntos, desde os índios, desde os xamãs, desde os vikings, ainda mais quando esses conversam sobre física quântica e o buraco-branco de Hawking.

Desde o início fazendo seu trabalho cotidiano, que consiste, como todos sabem, em pedir intermitantemente mais um gole de cerveja e o último trago de seu cigarro, Daniel sentou-se tão acomodado no chão sujo quanto nós nas nossas cadeiras Devassa. E assim começou sua parlação, que de início nos pareceria tipicamente mendiga, mas que logo após foi se tornando mais e mais reveladora, dada a consistência e o detalhamento obscessivo dos fatos contados, sua pantomima precisa, máscaras faciais dignas de qualquer kabuki e a riqueza de cores e tons de sua fala, seca e direta como um cutelo de ouro cortando fatias dessa realidade opaca que chamamos “quarta-feira à noite”.

Era tão grande nosso embotamento classe-média que nem imaginávamos que quando Daniel falasse de Jesus pudesse acabar provando-nos que este era na verdade um Grande Traidor da humanidade, e não um Grande Redentor da mesma, como a maioria costuma pensar. Esperávamos que começasse aquele lenga-lenga evangélico, até porque de acordo com o pensamento popular das “classes mais privilegiadas”, todo “morador de rua” (fico pasmo com a riqueza dessa expressão) deveria segurar na mão de Jesus, deveria se valer de uma proposta de salvação ingênua e ser necessariamente ludibriado por um poder maquiavélico e oportunista, e, acima de tudo, ser fraco, ignorante e moralmente estúpido, pois tudo isso provaria por a + b que a ignorância só existe da porta dos seus apartamentos pra fora. A família agradece.

Mas não. Daniel era um verdadeiro apócrifo. Não apreensível. Não propenso a ser arrastado pelas malhas da “compreensão social”. Mendigo por opção sim, saiu da casa dos pais para “beber melhor”. Não sabia ler, isso é verdade, mas discursava como ninguém. E foi assim que começou a nos verter suas palavras de fogo, palavras de uma sabedoria extrema, corrosiva e agonizante, como toda sabedoria deve ser para merecer tal alcunha. E, tal qual um apóstolo do apóstolo, tento reescrever aqui, em capítulos, humildemente, suas palavras iluminadas, tentando traí-lo ao mínimo. Com vocês, a teologia Danieliana, sua vida, sua obra, seu martírio.